2013/07/29

Congresso FEBRAVAR discute estratégia e inovação no comércio varejista



«As principais tendências do comercio varejista para os próximos anos, como mídia digital out-of-home – onde conteúdos variados e anúncios publicitários são dirigidos para públicos que circulam em um ponto de venda ou ambientes que exijam algum tipo de espera forçada – serão abordados entre amanhã e sexta-feira no Congresso para o Desenvolvimento do Varejo. Promovido pelo Sindilojas Porto Alegre, o seminário integra a primeira edição da Feira Brasileira do Varejo (Febravar), que ocorre no Centro de Eventos do Hotel Plaza São Rafael, e deve receber um público de seis mil pessoas.

»Pautado por temas como gestão de pessoas, estratégia e inovação, o evento oferecerá palestras e mesas-redondas gratuitas. O CEO da Gad e consultor especialista em marca e design, Luciano Deos, participa amanhã do debate O Varejo do Futuro, que terá a participação do presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, Gustavo Schifino, e do CEO do Empório Body Store, Tobias Chanan. Deos chama atenção para o fato de que tanto as lojas físicas quanto as ferramentas virtuais passaram a ter a mesma importância e merecem atenção similar. “Hoje em dia, o consumidor pesquisa tanto pela internet quanto na loja, e pode comprar nestes dois canais, ou ainda por uma terceira via, que é o telefone celular.”

»A motivação de equipes será discutida na quinta-feira em uma mesa-redonda que terá a presença, entre outros, do presidente do Sindilojas Porto Alegre, Ronaldo Sielichow e do presidente da ABRH-RS, Orian Kubaski. O diálogo irá envolver novas práticas necessárias para que as empresas estimulem o comprometimento dos profissionais. “Os mais jovens têm um perfil diferente, mais exigente e crítico e é preciso saber o que os motiva”, considera Kubaski.

»Sielichow diz que o Congresso para o Desenvolvimento do Varejo foi pensado para atingir principalmente os pequenos empresários do setor, que, segundo ele, estão entre mais de 90% dos lojistas tanto na Capital quanto no Estado. “Este público precisa entender melhor de inovação, criatividade, economia, todos os aspectos que envolvem as tendências do varejo para o futuro, a fim de vencer as adversidades e ser mais competitivo.”

»A diretora da Estrela Franquias, Fabiana Estrela, reforça que “se um empresário não estiver focado no trabalho com as pessoas, nada acontece”. Isso inclui não somente funcionários, mas todos os stakeholders (público estratégico). O Congresso para Desenvolvimento do Varejo também contará com palestrantes como a coordenadora do MBA em Marketing da HSM Educação, Martha Gabriel; o presidente do GH & Associates, George Homer; e o filósofo, mestre e doutor em Educação, Mario Sérgio Cortella. A programação completa pode ser conferida no site www.febravar.com.br»



Adriana Lampert, Jornal do Comércio









2013/07/26

«Inovação em prática. Como gerenciar a inovação para tirar as boas ideias do papel e torná-las projetos capazes de agregar valor aos negócios»





«Muito se fala sobre inovação, mas pouco é colocado em prática. Infelizmente, as discussões sobre inovação podem muitas vezes acabar impedindo que boas ideias entrem de fato para o mercado.

»A maior causa disso é que o gerenciar a inovação é uma habilidade ainda em evolução no mundo dos negócios. Ela está sendo formatada pela cultura das companhias, investigação acadêmica e oferta de serviços especializados, daí a dificuldade de muitos líderes colocarem novos projetos em prática.

»Aqui sugerimos dois passos concretos para ajudar líderes a impulsionar ideias inovadoras:


»1- Construir espaços para pessoas praticarem inovação

»Eu costumo falar sobre a tensão existente entre a confiança ( que protege e aprimora o que já deu certo) e a eventualidade (que abraça o futuro). Qualquer pessoa encarregada de inovar precisa de um lugar seguro para integrar os dois lados.

»Algumas empresas escolhem construir um espaço físico, enquanto outras optam por realizar workshops para funcionários de educação, atividades de imersão e ferramentas para criar empatia com clientes e pensar em soluções criativas de problemas. Independente da abordagem, esses ambientes não devem estar conectados com as outas etapas decorrentes do projeto.

»Como exemplo, podemos citar a iniciativa de uma empresa em criar uma espaço dedicado a pensar sobre a experiência dos clientes, de modo que os funcionários pudessem ter uma interação direta com diversos segmentos de clientes.


»2 – Desenvolver um método acessível para protótipos

»Este passo pode ajudar a gerenciar a inovação quando ela se tornar de fato um projeto. As pessoas envolvidas diretamente com operações não estão acostumadas a desenvolver rapidamente protótipos que sejam eficientes para mostrar como será a inovação. No entanto, esse tipo de protótipo é uma parte importante na construção do suporte que irá colocar a ideia inovadora em prática. Há diferentes métodos para a criação de protótipos com baixo custo capazes de fornecer detalhes sobre como o produto ou serviço final poderá ser valioso na experiência de consumo. Não precisa exatamente ser um protótipo físico: pode ser até mesmo uma tirinha em quadrinho ou um vídeo explicativo. O único critério que deve ser levado em consideração é que ele precisa efetivamente provar uma hipótese sobre a ideia, e não necessariamente mostrar toda ela em prática.

»Exemplificando, pode-se fazer um vídeo que mostre como um cliente utilizaria uma aplicação mobile para resolver algum problema de serviço. Você não precisa de um protótipo que dê informações específicas sobre cada estágio, e sim uma maneira de mostrar aos colegas por que você acredita que esse recurso poderá alavancar as vendas e a satisfação dos clientes.

»Um protótipo que explique que a necessidade do cliente, em vez da funcionalidade do recurso, é particularmente mais valiosa quando uma empresa consegue codificar um nível interno de conhecimento em alguma ferramenta de decisão para seus clientes.

»Então, se você quiser colocar sua empresa no caminho da gestão da inovação, crie espaços seguros para se experimentar práticas de design centradas em clientes, além dos projetos em andamento. E durante um projeto, desenvolva opções de protótipos que podem ajudá-lo a julgar a eficácia com o menor custo.

»Em geral, vemos que o pior inimigo da inovação está em gastar muito tempo para descobrindo qual é o problema que não está fazendo dar certo, ao invés de resolvê-lo.»



Information Week Brasil









2013/07/15

Bayard Do Coutto Boiteux: «A arte de inovar»



«A sobrevivência do turismo está na inovação. É preciso rapidamente sair do modelo de gestão e de produtos que muitas empresas insistem em oferecer ao mercado, dentro de um modelo, devo confessar jurássico, e buscar novas opções que demonstrem empreendedorismo e, sobretudo, inovação.

»Os eventos sofrem também de tal problema. Muitos se repetem com os mesmos temas, as mesmas discussões, os mesmos palestrantes e com um formato imutável. Basta criatividade e, sobretudo, vontade de mudar, de se arriscar para que tenhamos novidades.

»Acredito, sinceramente, que foi o que aconteceu com o evento Casa Real, agora em julho, na cidade de Vassouras. A Fazenda São Luiz da Boa Sorte, uma das relíquias do Ciclo do Café, resolveu abrir suas instalações para uma mostra de peças dos séculos 18 e 19. No entanto, buscou um formato totalmente diferente: convidou um grupo de arquitetos para que cuidassem dos diversos ambientes da casa. Uma verdadeira tematização e que ainda traz na sua concepção que eventos no interior não são apenas shows em praças públicas ou ainda concursos de gado. Vem imbuído também do conceito de interiorização, que gera novas oportunidades de comercialização do produto turístico.

»A região, que é o maior acervo de fazendas históricas do mundo, é um verdadeiro celeiro para um novo olhar sobre o turismo e que precisa apenas que os empresários e as autoridades acordem. Acordar, no sentido de fazer do produto uma experiência inesquecível. O Preservale, instituto que congrega as fazendas fluminenses, entra numa fase de mudar os rumos do turismo oferecendo, para ficar, uma modalidade cultural nas prateleiras dos agentes e operadores.

»Temos que nortear nossa atuação no mercado por propostas revolucionárias, como é o caso do Casa Real, e assim finalmente perceber que ainda há muito o que fazer se tivermos realmente espírito empreendedor para um turismo responsável, sustentável, de qualidade competitiva e de captação de fluxos constantemente. O muito aqui é para o sucesso empresarial e institucional do turismo brasileiro.»



Jornal do Brasil



Bayard Do Coutto Boiteux, professor universitário e pesquisador: www.bayardboiteux.com.br







2013/07/10

Cyro Andrade: «Inovação, assunto à espera de uma retórica esclarecedora»



«Houve época em que inovação era uma palavra de sentido pejorativo, associado a heresia na Igreja da Inglaterra (coisa de papista), ou na França católica (estigma para protestantes). O termo passaria a ganhar conotação positiva com a Revolução Industrial e o crescente reconhecimento da importância de invenções técnicas, como era mais comum dizer a princípio. Com o passar do tempo, a cultura de consumo faria o resto, com a ajuda dos grandes laboratórios de governos, nos Estados Unidos e Europa, desbravadores de conhecimento em várias frentes.

»Hoje, bem estabelecido o conceito em sua forma contemporânea, faltaria reconfigurar a retórica econômica e política que envolve o assunto. É preciso difundir o entendimento claro da essencialidade do Estado como agente de desenvolvimento tecnológico e dos modos como deve dar-se sua atividade na área, lê-se no livro The Entrepreneurial State – Debunking Public vs. Private Sector Myths, da economista Mariana Mazzucato (Anthem Press, 2013). A mudança de discurso deverá incluir, tese central que ela propõe, a rediscussão das relações entre Estado e empresas na busca de inovação, limpando-as de mitos, para atualizar a equação que tem como variáveis custos (em grande parte socializados) e benefícios (tortuosamente privatizados).

»Mariana, catedrática de políticas de ciência e tecnologia na Universidade de Sussex e professora visitante de economia da inovação na Open University, ambas no Reino Unido, dá o tom e a amplitude de sua proposta de reflexão quando escreve sobre a importância de se repensar, questionar mesmo, “mais do que nunca”, o papel do Estado na economia, “agora que se assiste à sua retirada, em muitas partes do mundo, justificada em termos de redução de endividamento e — talvez mais sistematicamente — em termos de tornar a economia mais ‘dinâmica’, ‘competitiva’ e ‘inovadora’”. Nesse discurso, as empresas são consideradas como “força inovadora”, enquanto ao Estado restaria manter-se como “força inercial”, necessária apenas para fazer o “básico”, e impedido, pelo tamanho e peso excessivos, de ser a “máquina dinâmica”.

»Admita-se que produzir inovação não seja o papel principal do Estado. Mas, como diz Mariana no livro, a demonstração de seu “caráter inovador e dinâmico potencial — sua histórica capacidade, em alguns países, de desempenhar um papel ‘empreendedor’ na sociedade — é talvez a maneira mais eficaz de defender sua existência, e tamanho, de um modo proativo”. Ela cita o historiador Tony Judt (1948-2010), que, no livro “Ill Fares the Land”, fala do ataque a que o Estado do bem-estar foi submetido nas últimas três décadas, “envoltório de uma batalha discursiva, na qual se mudaram os modos de nos referirmos a ele [o Estado], com palavras, como “administration”, tomadas para mostrá-lo menos importante e menos empreendedor” (“adventurous”). De novo, uma questão de retórica. Mariana faz-se, então, advogada da revisão dos modos como se fala do Estado, “com o desmantelamento de narrativas e imagens ideológicas” e distinção entre “evidências” e “ficção”.

»O livro é uma versão revista e significativamente expandida de um texto que Mariana produziu em 2011 para o “think tank” britânico Demos, sobre “O Estado empreendedor”. Com esse trabalho, ela pretendeu — não se sabe exatamente com quais resultados duradouros — convencer o governo do Reino Unido a mudar de estratégia: não fazer cortes orçamentários com o objetivo de tornar a economia “mais competitiva” e mais “empreendedora”, “mas reimaginar o que o Estado pode e deve fazer para assegurar uma recuperação pós-crise sustentável”.

»“A retórica da austeridade fiscal é, na verdade, baseada numa falácia, o chamado ‘paradoxo da poupança’ , que extrapola para toda a economia o fato de que uma unidade familiar pode consumir mais no futuro porque poupa no presente. Isso não é verdade para o conjunto da economia”, disse Mariana em entrevista ao Valor. E lembra que, como Keynes demonstrou, se todos os indivíduos adiam o consumo (aumentos nas poupanças individuais), a redução correspondente na demanda agregada resultará em menor atividade econômica e, consequentemente, em menos investimento. Então, a poupança total cairá, mesmo que todos os indivíduos procurem aumentar sua poupança. “Essa falácia está implícita em medidas de austeridade propostas para situações de recessão. E é uma imagem fácil de ser aceita por pessoas que nos últimos 40 anos receberam de todos os lados a informação de que o Estado é ineficiente e gasta em excesso. Como digo no livro, da mesma forma que a imagem do mexicano preguiçoso foi uma invenção que justificou o roubo do México pelos Estados Unidos (Texas, Califórnia etc.), a imagem do Estado lerdo, intrusivo, burocrático, justifica hoje um verdadeiro roubo maciço de recursos públicos.” Evidentemente, não será num ambiente tingido por esses preconceitos, no entender de Mariana, que se encontrará espaço para os investimentos de um Estado de forte presença no desenvolvimento tecnológico.

»Ao sublinhar o papel ativo que o Estado já pôde desempenhar em berços de inovação e empreendedorismo — como no Vale do Silício, nos Estados Unidos — Mariana procura mostrar que o Estado pode não apenas ser um facilitador da economia do conhecimento, mas também pode criá-la, se adotar uma visão ousada e se fizer investimentos claramente direcionados. O capítulo 5 de seu livro é todo dedicado à Apple, com exame detalhado da variedade de apoios que essa empresa líder da “nova economia” recebeu do Estado. É uma narrativa exemplar, que se desdobra, nos dois capítulos seguintes, na exposição do papel do Estado como destemido investidor por trás da revolução da internet e da tecnologia da informação e chega, enfim, ao que pode ser a presença marcante de agências governamentais na próxima grande transformação para a qual o mundo já se prepara, propiciada pela tecnologia “verde”.

»Tanto no relatório como no livro, Mariana fala em Estado “empreendedor” como principal agente de um “empreendedorismo”— atitude de conteúdo genérico “que todo policymaker hoje parece pretender encorajar” —, que não é (apenas) o das empresas iniciantes, do ‘venture capital’ e dos ‘curiosos de garagem’ (provável alusão à garagem da casa de Steve Jobs, em que ele e Stephen Wosniak, seu parceiro na fundação da Apple, deram os primeiros passos no desenvolvimento do computador pessoal). Ela se refere, isto sim, a iniciativas que incorporem a disposição e a capacidade dos agentes econômicos integrarem às suas decisões as noções de risco e incerteza nos termos definidos pelo economista Frank Knight em seu livro Risk, Uncertainty, and Profit (1921), distinguindo uma coisa da outra e clarificando, assim, o que cabe à empresa e o que cabe ao Estado, seja no “procurar fazer”, em termos de inovação, seja no retorno justo para o que afinal for feito.

»Knight diz que um mundo em permanente transformação traz novas oportunidades para as empresas obterem lucro, mas também é um mundo em que se tem um conhecimento imperfeito de eventos futuros. Portanto, a noção de risco se aplica a situações nas quais não se conhece o resultado de uma dada circunstância, mas é possível avaliar possibilidades com certa precisão. A incerteza aplica-se a situações nas quais não se dispõe de todas as informações necessárias para identificar possibilidades logo de início.

»“Tentativas de chegar a uma inovação geralmente fracassam — caso contrário, não se chamaria ‘inovação’. É por isso que você precisa ser um pouco “louco” para se envolver em inovação... Vai frequentemente custar mais do que você tem como retorno, e com isso a análise de custo-benefício tradicional impedirá de imediato que se prossiga na [busca da] inovação”. Mariana recorda, então, a frase famosa de Steve Jobs, em sua fala a formandos de Stanford, em 2005, quando disse que inovadores devem manter-se “famintos e loucos” (“hungry and foolish”). Ela sugere que se pense sobre quanto dessa “loucura” já não esteve associada a inovações financiadas e orientadas pelo Estado. “A maioria das inovações radicais, revolucionárias, que alimentaram o dinamismo do capitalismo — de estradas de ferro à internet, à nanotecnologia e a produtos farmacêuticos — estão associadas a investimentos ‘empreendedores’, capital intensivos, apoiados pelo Estado.”

»A inovação deve ser “sustentável e inclusiva”, também diz Mariana no livro. Pode-se entender que estão aí implícitas questões relacionadas a crescimento (no longo prazo) e distribuição de renda, cuja correlação com tecnologia constitui objeto de controvérsia entre estudiosos. Ela toma a observação para dizer, na entrevista ao Valor, que são os investimentos em diferentes tipos de capital, humano e físico (tangível e intangível) que levam ao crescimento. “Como se lê em meu mais recente “paper” com William Lazonick (“The risk-reward nexus in the innovation-inequality relationship”, a ser publicado), esses investimentos são feitos por famílias (que investem em gastos como educação para a força de trabalho), governos (que investem em infraestrutura, pesquisa, programas de treinamento e projetos de inovação) e empresas (que investem em materiais, fábricas, treinamento). A inovação só pode ser o resultado desse processo eminentemente coletivo. E o Estado, em países que cresceram por caminhos pavimentados pela inovação, desempenhou papel preeminente para além de apenas corrigir falhas do mercado.” De fato, vê-se no livro que todas as tecnologias por trás do iPhone foram desenvolvidas com recursos financeiros do Estado, frequentemente até mesmo para pesquisa “aplicada”. E a Apple (como muitas outras empresas de alta tecnologia) também recebeu financimento do Estado para suas primeiras atividades.

»Mariana dá destaque aos investimentos que o Estado brasileiro vem fazendo em inovação, especialmente através do BNDES. “Pude ver dados que mostram isso. Em 2012, o BNDES investiu R$ 2,2 bilhões em inovação, com um efeito multiplicador de 1 para 4 (para cada real investido pelo banco em inovação, empresas investiram outros quatro). E 77% desses investimentos foram dirigidos para setores altamente inovadores e capital intensivos, como o de tecnologia limpa. Embora eu compreenda que o BNDES ainda desempenha o clássico papel de investir em infraestrutura e em iniciativas contracíclicas (destinações principais de seus desembolsos), o financiamento de inovação é o que poderá levar o Brasil para a fronteira avançada do desenvolvimento e permitirá que o país alcance economias desenvolvidas, e mesmo a China.”

»Onde entra a questão da inclusão? Mariana começa observando que o crescimento resultante de investimentos em inovação deverá beneficiar todos os que de alguma forma deles participaram. Ou seja, se os riscos e investimentos são sociais, então os lucros também deverão ser. Em teoria, isso pode acontecer via tributação, tanto por meio de impostos pagos pelas empresas que se beneficiaram (a exemplo da Apple), como também por meio do aumento de renda (e, portanto, de tributos) da população. “O problema é que, com o passar dos anos, as alíquotas de tributação caíram a níveis tão baixos (para as empresas), e os governos tanto reduziram tributos que se tornou muito difícil haver um retorno de recursos para o governo (para então serem redistribuídos). Além disso, como muitos dos empregos vão para o exterior (recorde-se de novo da Apple), não está claro se o impacto se dará sobre a renda das pessoas que vivem na área em que os investimentos foram feitos.”

»Por isso, Mariana argumenta que é preciso haver mecanismos mais diretos de retorno para os investimentos do Estado em projetos de inovação, de modo que se torne possível a redistribuição de ganhos na economia (para as áreas de educação, saúde etc.). Esse retorno poderia dar-se por meio de participações acionárias ou retenção de uma “golden share” em direitos de propriedade intelectual, por exemplo. Em sua opinião, um bom modelo, nesse particular, seria, de novo, o BNDES. “O banco investe em infraestrutura e inovação, e obtém um elevado retorno sobre participações, que o Tesouro então retoma na forma de dividendos, e faz a redistribuição.” Em muitos países, como os Estados Unidos, esse mecanismo não existe. “Então, o governo americano basicamente deu sustentação financeira ao Vale do Silício, com socialização de riscos, mas a recompensa foi totalmente privada.”

»Isso leva à desigualdade, não a um crescimento inclusivo, conclui Mariana. E como a inovação se dá de forma cumulativa, a ‘captura’ (capture) de renda pode ser muito grande — ao contrário do que acontece em condições de crescimento inclusivo, quando se distribuem benefícios de forma socialmente justa entre a população (que contribui de diferentes modos para o processo de criação de valor), sem que se privilegie um pequeno grupo de indivíduos que capturam os retornos (o processo de extração de valor).

»“O fato de o Brasil, via BNDES, utilizar mecanismos por meio dos quais o Estado não apenas assume o risco de investimentos em inovação, mas também obtém retorno sobre os sucessos (de 2005 a 2007, o banco obteve mais de 500% de retorno sobre o investimento em start-ups inovadoras, diz Mariana), “torna esse modelo único no mundo, com potencial de influenciar as regras globais do jogo da inovação”.

»O BNDES também aparece no livro como um exemplar agente de financiamento de projetos nas áreas de energia renovável (incluindo etanol de segunda geração) e tecnologias verdes, que Mariana vê como de indiscutível potencial. Desde a crise financeira de 2007, uma série de fatores levou vários bancos comerciais a retirar recursos de investimentos ecologicamente orientados. Quem entrou no lugar deles? Bancos de investimento estatais e outras agências governamentais, várias das quais de países em desenvolvimento, como China e Brasil.

»“Acredito que países em desenvolvimento, que façam os investimentos necessários, podem tornar-se líderes na economia verde”, diz Mariana. “Verde” não se refere apenas a energia eólica, solar e biocombustíveis, “mas também à transformação de toda a economia, de modo que avance na direção verde. Isso significa reinventar os modos como as coisas são feitas, e mesmo repensar os modos como se estrutura a obsolescência de produtos”.

»Nada se dará, porém, de forma automática. A economia verde será o resultado de investimentos orientados para missões. “No passado, isso significou, digamos, levar o homem à Lua. Será necessário que diferentes setores interajam, de novas formas. E isso vai acontecer apenas em países onde o governo seja capaz de mostrar-se com uma ‘visão’ dinâmica, que atraia capital. É o que acontece na China hoje. A decisão dos chineses de gastar US$ 1,7 trilhão em cinco setores-chave (todos verdes, como novos motores, tecnologias ambientalmente amigáveis etc.) não se limita à criação de um alarido em torno da economia verde, mas, de novo, trata-se de ajudar a reescrever as regras do jogo da inovação. Pode-se dizer o mesmo para Cingapura e Coreia. E, naturalmente, para a Europa, em lugares como Alemanha, Finlândia e Dinamarca (a principal supridora de serviços de alta tecnologia para a indústria verde chinesa).”

»Mariana pretende que seu livro sirva como uma “exortação pública” para a mudança dos modos de falar sobre o Estado, seu papel na economia e das imagens e ideias que se usa para descrever seu papel.

»Por que essas imagens e ideias — que incluem, de certa maneira, a retórica da austeridade de políticas fiscais — puderam conquistar espaço tão amplo e influência entre os economistas e policymakers? Quais seriam os principais obstáculos a superar para se modificar essa mentalidade?

»Mariana começa por observar que “essa ideologia tende a ser muito mais forte em países como Reino Unido e Estados Unidos e, curiosamente, nas partes mais frágeis da Europa, especialmente países ex-comunistas, que veem ‘o mercado’ como um fetiche”. Nos países em desenvolvimento mais bem-sucedidos, como Brasil e China, há um reconhecimento do papel-chave do Estado. “Mesmo no Brasil, porém, há quem diga que o Estado ocupa indevidamente espaços que seriam da iniciativa privada — o que, evidentemente, é falso, uma vez que o Estado está fazendo [na área de inovação] o que a iniciativa privada não fará, ao investir em áreas capital intensivas de alto risco”.

»Com o discurso de que o Estado não passa de um “intruso” na economia e que, no máximo, poderá ser um “consertador” de falhas do mercado, “alguns agentes puderam apresentar a si próprios como líderes em inovação, que apenas precisam [para atuar de modo adequado] de diferentes tipos de redução de impostos e de remoção de empecilhos burocráticos”. Dessa forma, “também se capacitam a capturar uma parte muito maior do bolo do crescimento que resulta da inovação”. Enfim, “há fortes interesses financeiros na apresentação do Estado como uma inconveniência [no discurso de que] sua presença rouba espaço à iniciativa privada, para justificar a recompensa desproporcional que obtêm”. Mas isso “também leva a uma situação esquizofrênica, em que as empresas querem mais e mais dos governos, ao mesmo tempo que lhe permitem coletar sempre menos impostos para custear suas necessidades. Então, o resultado é disfuncional (no longo prazo) para todos os envolvidos. Mas no curto prazo muitos se locupletam com o ‘butim’”.

The Entrepreneurial State - Public vs. Private Sector Myths, Mariana Mazzucato. Anthem Press. 264 págs., US$ 15,90»



Artigo em Valor

«Como se inspirar em outros países para buscar soluções inovadoras? Respondido por Lourenço Bustani, especialista em inovação»



«Já é lugar comum, hoje, que para inovar é preciso olhar o mundo. Remixar ideias, culturas e comportamentos é um dos caminhos mais curtos e eficientes para se chegar a melhores práticas. No entanto, estar “antenado” nem sempre é uma tarefa fácil, pois requer abertura, disposição para o novo e um senso crítico apurado.


»1. Viva o novo

»Por mais rápidas e inteligentes que sejam as ferramentas atuais de pesquisa, nada se compara a viver o novo. Ter um repertório amplo de vivências multiculturais expande a mente e facilita a busca por soluções escaláveis.


»2. Explore o digital

»Quando não for possível fazer as malas, lembre-se que o universo digital está à sua inteira disposição. Use e abuse da internet para se manter atualizado sobre o que acontece lá fora.


»3. Entenda as diferenças

»A diversidade, de um lado entendida como riqueza, pode ser também uma armadilha. Por muito tempo, empresas multinacionais impuseram estratégias “copy & paste”, o que configura uma barreira para a inovação. Cada lugar tem sua “cara”, e esse jeito próprio de ser e inovar deve ser entendido e somado, não substituído.


»Lourenço Bustani é especialista em inovação e sócio-fundador da Mandalah»



Exame









2013/07/04

Marcelo Romcy: «Gostamos de sonhar grande e sonhar firme, dando um passo de cada vez e sempre com os pés no chão» (min. 6)




Endeavor Brasil: Sonho Grande com Marcelo Romcy

«Sua paixão pelos computadores desde os 12 anos de idade o levou a escolher a carreira em Ciência da Computação. Foi com os computadores da Universidade Federal do Ceará que ele teve a ideia de empreender oferecendo softwares de conexão à internet para os provedores da época.

»Após crescer e conquistar clientes em todo o Brasil, Marcelo e o sócio João resolveram que não queriam ser uma empresa de multimídia e descobriram seu nicho: segurança da informação.

»Foi aí que nasceu a Proteus, que hoje é líder no setor e tem clientes entre os maiores bancos, órgãos governamentais e grandes corporações no Brasil, América Latina e EUA.»











Márcia Veras: «A Avaliação 360 Graus» (Feedback 01)



«Ela é uma das formas mais eficientes e eficazes para apoiar o desenvolvimento humano e organizacional, desde que utilizada corretamente!

»A avaliação 360º (ou Feedback 360º) é um instrumento de desenvolvimento que pode ser usado por qualquer pessoa que tenha interesse em se autoconhecer, enxergando-se a partir de múltiplas perspectivas. Quando utilizada dentro do contexto organizacional, contribui de maneira significativa para o desenvolvimento de competências e comportamentos de liderança demandados pela organização.

»Trata-se de um processo em que os participantes (avaliados) recebem feedback estruturado de seu superior, pares e subordinados, fazendo também uma autoavaliação. O 360º, como é comumente chamado, pode ser feito de maneira formal ou não, avaliando competências específicas ou simplesmente perguntando sobre comportamentos demonstrados. Tradicionalmente, a avaliação 360º é construída sobre competências específicas e conduzida de maneira anônima, proporcionando assim um feedback mais honesto e transparente.

»Seu resultado consolida as diversas percepções e funciona como um espelho de 4 faces, em que se pode comparar a visão de cada um dos grupos com a visão que se tem de si próprio, gerando poderosos insights para o participante.


»É importante ressaltar que a avaliação 360º mensura percepções, mas não pode ser tomada como verdade absoluta. Ela deve, sim, ser utilizada para reflexão e desenvolvimento, mas não como instrumento de mensuração de performance ou para subsidiar programas de remuneração variável, por exemplo. Sistemas ou processos imprecisos ou confusos podem levar a resultados improdutivos, como feedback punitivo, metas de desenvolvimento não apropriadas, stress, cinismo, descrença e falta de participação.

»Por outro lado, se feito e utilizado corretamente, o 360º leva o avaliado a assumir responsabilidade por seu autodesenvolvimento, por meio da elaboração e execução de um plano de ação com objetivos claros e indicadores de progresso. No entanto, para que o avaliado assuma essa responsabilidade, ele deve ser envolvido desde o início na escolha dos participantes que irão responder sua avaliação. A credibilidade destes perante o avaliado é crítica para o sucesso do processo.

»Da mesma forma, o resultado deverá ser entregue em primeira mão para o avaliado, para que ele tenha tempo de assimilar o conteúdo e refletir sobre as mensagens ali contidas. Se isto não for respeitado, o avaliado poderá descartar os resultados da avaliação e todo o processo terá sido um desperdício de tempo e recursos. O que se recomenda é que o próprio avaliado compartilhe seus resultados com seu superior imediato para discutir seu plano de desenvolvimento, alinhando suas necessidades de desenvolvimento com aquelas identificadas pela empresa.»


Endeavor Brasil


Imagens: G-Quod y Talentos Top







Márcia Veras: «Por que é tão difícil dar e receber feedback?» (Feedback 02)



«Este momento pode ser mais efetivo quando visto como uma oportunidade de se desenvolver, não como crítica.



»Sabe o frio na barriga que sentimos quando sabemos que precisamos dar um feedback difícil para um subordinado? E o nervosismo antes daquela reunião em que sabemos que vamos receber um feedback? Sim, mas – ainda bem – existem algumas coisas que podemos fazer para facilitar este processo.

»Dar feedback é uma das coisas mais importantes que podemos fazer como líderes, porque é por meio dele que podemos ajudar alguém a se desenvolver. Ao mesmo tempo, é uma das tarefas mais difíceis porque, infelizmente, temos o costume de enxergá-lo como uma crítica – e não gostamos de criticar os outros, muito menos de ser criticados.

»Para começar, podemos mudar um pouco esta abordagem. Se passarmos a enxergar o feedback como algo construtivo, que fazemos porque queremos bem àquela pessoa e desejamos ajudá-la, fica bem mais fácil. Na verdade, dar feedback é algo que só fazemos quando nos preocupamos com o outro.

»Caso contrário, deixamos de lado com a ideia de que “não adianta mesmo” ou “não vai fazer diferença”. Este é um dos pontos mais importantes para um bom feedback: que seja bem-intencionado.




»Além disso, para que seja efetivo, é preciso que seja específico e refira-se a um comportamento observado sobre o qual a pessoa possa fazer algo a respeito, evitando generalizações e julgamentos. Deve ainda ser dado de forma direta. Esqueça aquela técnica do sanduíche – falar algo bom, algo ruim e algo bom no final – isso pode confundir seu interlocutor.

»O feedback ideal segue uma regra bem simples: dê o contexto, exemplifique o comportamento observado e explique o impacto que este comportamento teve em você, no time ou na organização. Termine com uma sugestão da mudança que gostaria de ver.

»Por exemplo: “Nas últimas três reuniões você chegou atrasado, fazendo com que nós perdêssemos tempo retomando assuntos e não conseguíssemos finalizar no horário e cobrir toda a agenda. Você poderia chegar na hora a partir de hoje, por favor?” Simples e de fácil entendimento, não é?

»Lembre-se, por fim, que receber feedback também é difícil e geralmente ativa nossos mecanismos de defesa. Use a sua empatia para colocar-se no lugar do outro e pensar sobre como ele está recebendo a mensagem. Caso seja você a receber o feedback, procure não discuti-lo ou rebatê-lo de imediato. Se a pessoa está investindo nisso o tempo dela, é porque se preocupa com você e quer ajudá-lo. Escute, entenda a perspectiva do outro e reflita sobre ela. Depois, se for o caso, volte a conversar com a pessoa sobre o assunto. Mas somente depois de refletir. Como dizia um antigo chefe: “Feedback é um ato de amor. Não discuta, registre e reflita sobre o que quer fazer a respeito!”»


Endeavor Brasil


Imagens: Bernstein Center Freiburg








Antonio Gil: «Os negócios e as redes sociais. Como o uso das redes sociais em um país como o Brasil pode agregar valor aos negócios»



«Com 1,5 bilhão de usuários espalhados pelo mundo, as redes sociais são um divisor de águas para os negócios, pois estimulam e expõem novos comportamentos e aspirações que as empresas precisam conhecer e atender. Os empreendimentos devem ir muito além de criar presença nas plataformas sociais para aumentar a exposição das marcas, mas utilizá-las para o desenvolvimento de produtos, interação com clientes, atendimento ao consumidor, recrutamento e seleção, aumento da produtividade e colaboração de seus funcionários.

»A penetração das redes sociais nas Pequenas e Médias Empresas nos EUA é de apenas 31%, de acordo com estudo da consultoria McKinsey. O relatório ainda aponta que 70% das empresas usam tecnologias sociais e 90% delas relatam benefícios para os negócios, mas a implementação de estratégias sociais em todo seu potencial agregaria valor adicional de US$ 900 bilhões a US$ 1,3 trilhão globalmente por ano. Em um País de pioneiros na adoção de tecnologias sociais, existe uma grande oportunidade para que os empreendedores brasileiros ampliem o uso das plataformas sociais para agregar valor aos negócios.


»Consumidor social

»Mais do que angariar fãs, as plataformas sociais possibilitam a coleta de informações sobre comportamento, localização e preferência dos indivíduos de maneira mais rápida e barata. Com estes dados, as empresas podem entender os desejos e necessidades de seus consumidores para definir estratégias de negócio, marketing e desenvolvimento de produtos.

»O uso de redes sociais permite, ainda, a interação instantânea e personalizada com clientes. A comunicação das empresas com usuários nestas plataformas passa a ser bidirecional, pois permitem o feedback da comunidade de consumidores sobre marcas, produtos, campanhas, etc. Os indivíduos usam as redes sociais para ouvir a opinião de outros usuários, encontrar informações relevantes, se conectar com marcas e produtos e cada vez mais se apoiam nas suas conexões sociais para decisões de compra. Para ter uma ideia do potencial destas plataformas, cerca de 30% dos gastos dos consumidores poderia ser influenciado por social shopping, de acordo com a McKinsey.


»Colaboração em escala

»A internet proporciona a utilização da inteligência e conhecimentos coletivos para resolver problemas e desenhar soluções (crowdsourcing). A colaboração também pode acontecer dentro das empresas por meio do fluxo livre de ideias e conteúdo. As redes sociais tornam as pessoas mais produtivas, pois reduzem as barreiras e permitem a interação de diversas áreas de negócio para solucionar problemas com inovação multidisciplinar, criando assim novos produtos e estratégias.

»Um passo seguinte é abrir esta comunidade para clientes e parceiros, fomentando a colaboração inovadora. As tecnologias sociais, quando usadas nas empresas segundo a McKinsey, tem o potencial de aumentar a produtividade de trabalhadores qualificados de 20 a 25%.

»Quando o assunto é redes sociais, inevitavelmente surgem preocupações nas empresas. Mas e a privacidade do consumidor e dos dados da empresa? As aplicações são seguras? Os funcionários não perdem tempo nestas plataformas? Os benefícios das redes sociais dependem de uma série de fatores, como o setor de atuação e perfil da empresa, assim como inovações gerenciais no seu uso, mas podem produzir ganhos de fato para os negócios. Estes pontos devem ser considerados, mas é importante que não impliquem na restrição dessas plataformas nas empresas.

»As redes sociais se tornaram um fenômeno cultural, social e econômico, com a mudança de comportamentos, desde cotidianos a movimentos políticos. Para as empresas, trazem benefícios nas mais diversas áreas, desde a percepção e reconhecimento da marca pelos consumidores, até a distribuição digital de novos produtos e serviços. Os seus consumidores estão nas redes sociais. Como você está aproveitando esta oportunidade?»


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