2016/11/22

Jacob Palis: «Ciência, Tecnologia e Inovação podem ajudar o país a sair do atual cenário de crise»



Entrevista de Alexandro Mota. Correio 24 horas



«Jacob Palis é um dos principais nomes da Matemática no Brasil e defende ampliação da parcela do PIB direcionada para Ciência, Tecnologia e Inovação para que país volte a crescer.

»Aos 76 anos, Jacob Palis se orgulha de ter sido “irresponsável no bom sentido” e ter conseguido flexibilidade quando se doutorou em Matemática, nos Estados Unidos. Outro orgulho de um dos nomes referência da matéria no país é o que ele chama de árvore genealógica de doutores, que inclui os premiados pesquisadores Marcelo Viana, atual diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), do qual é pesquisador emérito, e o matemático Artur Ávila.

»Os três trouxeram para o país importantes reconhecimentos na área. Arthur levou a Medalha Fields, Viana ganhou o Prêmio Científico Louis D. e o próprio Jacob, em 2010, ganhou o prêmio Balzan. Nessa entrevista, que integra as discussões do Fórum Agenda Bahia, o matemático defende que o Brasil precisa cuidar do motor da economia, sustentado pelo tripé Ciência, Tecnologia e Inovação. O Fórum Agenda Bahia é uma realização do jornal CORREIO e da rádio CBN, em parceria com Braskem, Coelba, Fieb e prefeitura de Salvador.



»Pequenas alterações em um sistema podem gerar grandes transformações. Como a sua área de estudo, os Sistemas Dinâmicos, pode contribuir para antecipar crises e soluções?

»Sistemas Dinâmicos correspondem, para simplificar, a você ter uma série de equações na qual é possível você seguir trajetórias. É algo que você pode, sim, aplicar para fenômenos da natureza ou também, por exemplo, pensar o crescimento econômico ou da população. Dá sim para pensar no futuro com equações, pensar a economia de um país e como determinados fatores evoluem e influenciam na economia.


»Na prática, esses conhecimentos são subestimados em relação à possibilidade de pensar questões como a crise que o país vive?

»Não são subestimados, o que ocorre é que o nosso conhecimento, mesmo teórico, ele vai crescendo com o tempo. Ainda há muita coisa para a gente descobrir. A princípio é um assunto que parece difícil e é difícil mesmo. Primeiro tem que formular bem as equações que estão espelhando o crescimento ou decrescimento ou, por exemplo, ver como a economia está avaliando os lucros que estão sendo obtidos na Bolsa e qual variação desses lucros.


ȃ algo de longo prazo...

»Sim, quase sempre. Por exemplo, um fenômeno que nós gostaríamos de demonstrar está relacionado com um subconjunto dessas equações. Eu formulei uma conjuntura em 1995, imagina. E até agora o que temos são resultados parciais. Lembro que apresentei em um aniversário de 60 anos de um matemático importante e tiveram muitos contraexemplos naquela época, pessoas que diziam ‘nesse caso não funciona’ ou ‘naquele outro’... Mas mais da metade ficou do meu lado (risos). Eu estava muito confiante...


»Importante citar isso dos contraexemplos e da sua confiança, já que soube que o senhor atribui, de alguma forma, o recebimento do importante prêmio Balzan a sua crença na incerteza. Explica isso.

»(Risos) Eu acredito que o prêmio Balzan veio em parte pelas conjecturas, mas não só as conjecturas. Eu provei, às vezes, junto com outros colegas, um número relevante de resultados, tentando esclarecer como é que a longo prazo essas equações (dos sistemas dinâmicos) funcionam. Mesmo que eu não tenha obtido, junto com meus colegas, a meta maior, final, muitos casos particulares foram coerentes com a conjectura. Ela continua em aberto quase 20 anos, mas em muitos casos ela funcionou. É assim que um cientista se comporta, ele formula perguntas ou ele responde perguntas importantes de outros colegas para o entendimento daquele assunto e quanto maior for a proximidade com aplicações, mais relevante isso fica.


»Como pesquisador, como lida com essa distinção de teoria e prática tão exigida pelo mercado?

»Eu mencionei essa importância da aplicação, mas isso não quer dizer que o matemático ou o físico está preso a aplicações. Elas são importantes, o objetivo de dar respostas ao comportamento futuro do planeta Terra em termos ambientais, por exemplo, isso é de primeira prioridade. Então, claro que o problema que você coloca, se tem a ver com o meio ambiente, ele cresce de importância, a mesma coisa a economia. O cientista não só trabalha por motivação de aplicações, mas também ele tem que abstrair e tentar resolver problemas que posteriormente vão tentar resolver aplicações. É um jogo fascinante para o cientista e nem sempre é fácil explicar para o público. Outra coisa é que quanto mais aplicações mais chances de você conquistar o governo e a população em geral.


»Falando em governo, especialmente em um momento de enxugamento da máquina, como apostar em ciência pode ajudar a driblar a crise?

»A comunidade científica particularmente, que é o mundo que eu vivo, o mundo do Impa, dos institutos de Física e de Biologia… Os cientistas em geral são primeiro muito apaixonados, gostam de fazer descobertas e sobretudo que essas descobertas possam melhorar a vida humana ou a vida de um país. Nós acreditamos convictamente – na verdade essa é uma frase que não é minha, é do Barack Obama – que é como se estivéssemos em um avião pilotado e o motor dele é a ciência, a tecnologia e a inovação. A gente constata que os países evoluem positivamente em benefício para sua população do ponto de vista econômico, ambiental e na área da saúde, onde se investe mais nesses três campos.


Se você olhar as estatísticas, você vai ver que os países que mais investem na formação de bons pesquisadores, eles são economicamente melhores. Crise todo mundo tem, mas são esses os países que evoluem mais depressa.

»Qual seria um bom exemplo disso, de bons resultados nos investimentos nessa área?

»Se olharmos a Coreia (do Sul). Eu terminei meu doutorado nos Estados Unidos em 1968. Havia vários alunos da Coreia e tanto o pessoal local, os americanos, como os estrangeiros, procuravam ajudá-los por conta do nível de desenvolvimento da Coreia, que não era muito bom. O Brasil certamente estava à frente. Hoje se inverteu. Eles apostaram em estimular os jovens e investem mais de 4% do seu Produto Interno Bruto em ciência e tecnologia. Se comparar com Brasil é 1,4%. A comunidade europeia está planejando atingir 4 nos próximos dez anos, a China passou de 2. Então, estamos batalhando para que se atinja 2% nos próximos 4, 5 anos. O atual ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação, o ministro (Gilberto) Kassab, ele afirma que adotou a tese dos 2% e isso é muito importante. Isso realmente se confirma como o motor de uma nação rumo ao progresso.


»O senhor foi um aluno questionador, começou na Engenharia, mas depois migrou para Matemática. Por que essa mudança?

»Durante o meu curso, eu me interessei por Matemática e um pouco por Física também. O Impa era muito pequeno, mas dava uns cursos. Nasceu pequeno, mas com ótimos pesquisadores. Mauricio Peixoto, Elon Lima… Eram poucos, mas muito bons. Aí eu fui fazer cursos e gostei. Eu sei que depois que me formei em Engenharia, em 1962, eu fui o aluno com o melhor grau na soma das disciplinas formando naquele ano. Mas eu já estava pensando meio ousadamente, talvez meio irresponsavelmente, em fazer um doutorado no exterior, talvez nos Estados Unidos. Era uma espécie de sonho que não era muito distante já que eles davam bolsas para bons alunos daqui. Eu saí do país em 1963, foi um ano complicado por causa do golpe militar. O CNPq parou de funcionar e eu ganhei uma bolsa americana. A minha família achou que eu estivesse... – louco é exagero – fora da realidade. Eu tinha estudado tanto, tinha me dado superbem, iria estudar mais para que, né? Eu fui então estudar em Berkeley. Sempre meio ousado e irresponsável, no bom sentido, eu terminei tudo em três anos e recebi o convite de ficar lá como professor assistente. Fique, mas antes do final do contrato, renunciei e voltei, queria contribuir com o desenvolvimento do Brasil e logo lembrei do Impa.


»Voltou direto para o Impa?

»Não, antes tive uma passagem pela universidade. Dependia de ser convidado. Mas sempre foi o que eu queria, avançar com mais rapidez com alunos, a universidade me dava impressão de ser tudo muito grande, muito burocrática e que queria andar de pressa. Não era uma crítica em relação à universidade, era um sentimento. Lembro que quando voltei para o Impa, a minha família, outra vez, disse: ‘mas você vai viver de bolsas o resto da vida?’. A minha família ficou assustada (risos). Recebi o convite e fiquei no Impa.


»Como foi o primeiro contato com os alunos no Impa, vindo de outra realidade?

»Eu comecei aqui por volta de 1975 e fazia uns seminários sobre Sistemas Dinâmicos e eu me lembro que o Wellington de Melo, que foi meu primeiro aluno de doutorado, bateu a minha porta e disse que queria fazer parte dos seminários. Eu olhei a ficha dele e ele estava inscrito para o mestrado, mas aí ele disse que iria estudar muito e aí eu lembrei de minha própria ousadia em Berkeley e concordei. Olha, foi um sucesso, ele terminou em dois anos e teve a tese publicada em uma das melhores revistas internacionais. Ele tinha concluído a graduação em uma federal em Minas Gerais, mas muitos como ele foram ajudados pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, que aceitava o aluno no vestibular e quando mostrava muita competência, conseguia bolsa junto ao CNPq e à Capes. Vários terminaram o doutorado até antes da graduação, tudo dentro da lei. O Wellington, vinte anos depois, foi quem orientou o Artur Ávila (ganhador da Medalha Fields). O Impa é um símbolo de criar novos líderes da Matemática. A minha árvore genealógica em Matemática deve ter 220 doutores que orientaram outros tantos. Não posso deixar de mencionar um trabalho local, aí na Bahia, de excelência que estão fazendo que é do professor Vilton Pinheiro, da Universidade da Bahia, que também estuda Sistemas Dinâmicos e tem um trabalho que a gente sempre valoriza que é de cooperação. No caso dele com a Universidade de Alagoas.


»O senhor tem acompanhado a discussão sobre a reformulação do ensino médio?

»Eu não estou muito envolvido nessa linha, o Marcelo Viana (atual diretor do Impa) é quem é mais referência, é quem se dedica a isso. Ele, inclusive, com outros pesquisadores, criaram o tal do Profmat (Programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional), que é um programa muito bem feito para estimular os professores de ensino médio a obter uma pós-graduação. É um sucesso que deveria ser visto por outras áreas. É importante pensar a melhoria do ensino, o país precisa melhorar a qualidade desse ensino, de onde vai surgir o novo pesquisador, que vai constituir um motor do futuro do Brasil, segundo o Obama (risos).


»O senhor, notadamente, mostra o quanto é apaixonado por Matemática, por ciência. Quando tem oportunidade de conversar com jovens, que acham a Matemática algo difícil e que a evita, qual o argumento que o senhor usa para transmitir essa paixão que o senhor tem?

»Acho que tem um bom argumento, que é, mesmo, os resultados. Se você olhar as estatísticas, você vai ver que os países que mais investem na formação de bons pesquisadores, eles são economicamente melhores. Crise todo mundo tem, mas são esses os países que evoluem mais depressa.»





Inovação e discursos

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