2016/12/16

Leonardo Fausto Zipf: «Duas Rodas está preparada para ser a maior da América Latina em seu segmento»



Entrevista de Alessandra Ogeda. Notícias do Dia @ND_Online



«Líder nacional na fabricação de aromas para a indústria de alimentos e bebidas e na produção de ingredientes para sorvetes no Brasil, a gigante catarinense Duas Rodas completou 91 anos de história no último dia 1º. Com quatro fábricas no Brasil, incluindo Jaraguá do Sul, onde é a sede da companhia, em São Bernardo do Campo (SP), em Estância (SE) e em Manaus (AM), e mais quatro fábricas no Exterior, na Argentina, no Chile, na Colômbia e no México, a Duas Rodas tem crescido dois dígitos há pelo menos 15 anos.

»Liderando o processo de crescimento da empresa está o catarinense Leonardo Fausto Zipf, 52 anos, que em 2017 completará 30 anos de trabalho na Duas Rodas. Natural de Blumenau, cidade em que passou a infância e o início da trajetória profissional morando na Rua Goiás, 165, no populoso bairro Garcia, Zipf começou a trabalhar aos 16 anos de idade no banco Bradesco. Aos 17 anos ele foi trabalhar na Prodava, empresa de processamento de dados e, na sequência, em uma referência nesta área, a Cetil.

»"Foi uma grande experiência porque a Cetil era o maior bureau privado da América Latina. Ela era uma referência", comenta o executivo. Após trabalhar cerca de três anos na Cetil, Zipf começou a sua trajetória dentro da Duas Rodas como supervisor de vendas. "Eu acho bastante importante que todo o meu processo de construção de carreira iniciou comigo trabalhando como supervisor de vendas, quando eu levava a minha pastinha e ia viajar 45 dias seguidos", recorda.

»Segundo o presidente da Duas Rodas, esta cultura de aprendizado e de subir degrau após degrau é típico da Duas Rodas. Além de Zipf, que foi crescendo aos poucos dentro da empresa, a terceira geração dos fundadores também passou pela mesma experiência. "Esta é uma cultura vivenciada. Ninguém tem a expectativa de iniciar (na empresa) como diretor. Tudo é construído gradativamente, até porque todos sabem a importância de cada degrau", complementa.

»Até hoje Zipf diz que toma decisões, como presidente da companhia, tendo como base as experiências que viveu como supervisor de vendas. "Algumas pessoas acham que a subida (em uma empresa) é traumática. Nada, a subida é tranquila. O importante é que a gente reconheça a queda como oportunidade de fazer melhor à frente. Quando temos esta percepção, de que a queda, como o sucesso, não são permanentes, percebemos que isso faz parte (do processo)", ensina.

»O presidente da Duas Rodas faz parte da terceira geração da família dos fundadores Rudolph e Hidegard Hufenüssler. Ele é casado com Brigitte, filha de Rodolfo Hufenüssler e que, ao lado do irmão Dietrich, consolidou a empresa fundada pelos pais deles. Zipf defende que a Duas Rodas continue crescendo, inclusive com a possibilidade de se tornar líder na América Latina com nova aquisição em 2017, mas sem esquecer os valores ensinados pelos fundadores: "A valorização do ser humano, do nosso capital humano; a inovação como diferencial competitivo e reinvestir os recursos na própria empresa". Confira, a seguir, a penúltima entrevista do projeto "Sempre à Frente".


»Nestes 91 anos de história da Duas Rodas, quais foram os momentos mais desafiadores para a empresa?

»Eu acredito que sempre o momento mais desafiador da empresa é o momento de sua fundação. Quando, de fato, ela não tem uma estrutura de capital forte e ela tem que remunerar o sócio com um salário, porque ele abre mão de outras atividades para se dedicar à empresa, e talvez exatamente neste momento é que surja o que talvez é o mais importante para toda organização, que é a força da sua cultura empresarial. No caso da Duas Rodas, quando vieram os fundadores, que abriram mão de seu trabalho na Alemanha para iniciar a sua atividade, eles abdicaram de muito conforto na época, na Alemanha. Muito conforto eu digo de estrutura de cidade mesmo, de país. E vieram para o Brasil, onde tinha pouca infraestrutura, e iniciam as suas atividades. E talvez o que é o traço mais forte da cultura destes empreendedores foi reinvestir os seus recursos, manter o firme propósito de perenidade para a organização e a sua vocação para a inovação. Porque de fato eles foram inovadores e trouxeram produtos inovadores que, posteriormente, inclusive, foram exportados para a Europa.


»Interessante o senhor fazer esta análise porque eu imagino que quando os fundadores começaram a empresa eles já tinham a ideia de um dia a Duas Rodas ser uma empresa centenária, não?

»Eu acredito que sim. Até porque, de fato, qualquer empresário, eu diria isso até tirando um pouco da minha experiência empresarial, nós não limitamos a empresa a uma geração. Acho que o maior compromisso de qualquer empresário é exatamente a perenidade, a continuidade do projeto. Dentro deste contexto, existe todo um preparo que tem que haver, não só apenas da sociedade (envolvida na empresa), mas também da visão empresarial da gestão para que ela possa continuar. Primeiro, fazendo com que a sua marca seja reconhecida no mercado. E eu sempre digo que não basta a liderança de produto, é a importante a liderança de marca, porque a liderança de produto é até muito simples. Eu não diria que é simples, mas é sempre mais fácil do que a liderança de marca. Veja o caso da Odebrecht, por exemplo. Eles tem uma liderança de produto mas não tem nenhuma liderança de marca hoje. Então eu acho que o mais importante é que se tenha a condição de crescer liderando o mercado, e nós temos a liderança deste mercado há praticamente 18 anos em todas as atividades que nós atuamos.


»Essa liderança da Duas Rodas acontece apenas no Brasil ou também no mercado da América Latina?

»No Brasil nós estamos em primeiro lugar nas nossas divisões e na América Latina nós estamos em segundo lugar, e a diferença que hoje nós temos do primeiro lugar dá US$ 30 milhões. Uma coisa pequena, nós estamos muito próximos.


»Essa diferença da Duas Rodas em relação à empresa líder na América Latina tem diminuído?

»Tem diminuído, principalmente por aquisições. Então estamos muito próximos. E de fato, e eu vou te dizer isso, que é uma coisa muito importante, que a concorrência também estabelece o teu sucesso, porque ela faz parte de todo o processo e ela te traz uma visão de sempre dar um passo adiante, de sempre procurar aperfeiçoar a equipe, os processos e tudo mais.


»Como a diferença entre vocês e o 1º lugar na América Latina é de apenas US$ 30 milhões de faturamento, vocês tem perspectiva de chegarem à liderança?

»Eu acredito que mais uma aquisição e que está mapeada no nosso planejamento estratégico para 2017 e nós assumimos a liderança. Vamos lá… e eu tenho sempre uma frase que é que a arrogância precede a queda. Então a liderança é importante, porque aumenta a nossa responsabilidade no sentido de dar um passo à frente, mas muito mais a responsabilidade de continuarmos com a simplicidade que sempre tivemos, com a humildade de reconhecer que isso é um fator determinante em função do trabalho em equipe e da aceitação da nossa marca junto aos nossos clientes.


»O senhor é da terceira geração da empresa. Quais valores, na opinião do senhor, a Duas Rodas preserva desde a sua fundação e que serão importantes para os próximos desafios da companhia?

»Eu diria que primeiro, uma parte muito forte da empresa, é a valorização do capital humano. Na verdade é ele que faz toda a diferença dentro de qualquer processo, seja no processo produtivo, no processo estratégico ou no processo de relacionamento junto aos seus clientes. Então o capital humano é muito valorizado na empresa. A gente reconhece que o trabalho é fruto de um trabalho em conjunto e não resultado do egoísmo, e que as duas coisas também podem ser compartilhadas, os bons resultados também devem ser compartilhados.


»Como vocês fazem, na prática, esta valorização das pessoas dentro da empresa?

»Primeiro criando um ambiente colaborativo aonde as pessoas aqui trabalham com muita vontade. Felizes, atentos, mas não tensos. Acho que o ambiente é uma coisa muito importante. Tem muitas empresas que tratam muito a questão salarial como um diferencial e eu acho que o ambiente é o primeiro, porque muitas pessoas passam mais tempo aqui (na empresa) do que com as suas famílias. E é importante que coisas simples, como um “bom dia”, ter respeito na hora de uma conversa, perceber que não é sempre que as pessoas estão sem problemas, e que é importante que a gente tenha também a habilidade de tratar as questões pessoais. Não digo nem compartilhar, mas tratar estes momentos também de forma especial.


»Ter aquela atenção de perceber pelo que o funcionário está passando e ter sensibilidade de encontrar saídas que possam auxiliá-lo, não é?

»Isso. Exato. Ter essa sensibilidade. E eu sempre falo que um dos grandes desafios de qualquer empresário é gostar de pessoas. E aqui as pessoas são muito importantes. Eu tenho uma reunião com toda a diretoria uma vez por mês quando eu só trato capital intelectual. Só os planos, os benefícios, o que nós estamos pensando para o futuro, as habilidades e competências que devem ser desenvolvidas, o que podemos criar de melhor na relação interpessoal.


»Um grande desafio também é como estimular as pessoas para continuarem fazendo um bom trabalho e inovando, correto?

»Sim. Então esse é um ponto, a valorização do ser humano dentro da organização. O segundo ponto é desenvolver habilidades e competências. Porque eu não posso identificar que uma pessoa não é competente em sua atividade e criar um padrão como se ela não fosse competente em nenhuma atividade. Então identificar as habilidades das pessoas é algo fundamental. Outro ponto dentro disto é que o ser humano não é provido de todas as habilidades que são necessárias no mundo. E é exatamente a união destas habilidades que desenvolve um bom projeto.


»Neste ponto entra a formação direcionada para cada indivíduo e a complementaridade de habilidades que ocorre em uma equipe, correto?

»Perfeito. E tem que ter uma administração mais participativa, onde as pessoas possam falar, compartilhar, expor o seu pensamento e que seja respeitado isso. Não existe um ambiente que seja colaborativo e inovador se ele estiver sob uma pressão. Ele tem que ser um ambiente leve. De responsabilidade, com objetivos muito bem definidos, com planejamento estratégico bem estruturado, com metas desafiadoras mas um ambiente leve.


»Um ambiente que não vai tolher a criatividade e a liberdade das pessoas.

»Porque as pessoas quando entram dentro na empresa, vamos pegar o primeiro turno aqui, que chegam as 7h30 e saem as 17h18, com parada para o almoço, eles só vão utilizar o capital intelectual trazendo ideias inovadoras para a empresa se eles quiserem. O cartão-ponto não garante absolutamente nada disso. O que garante é a disponibilidade de cada um de querer colocar o seu melhor. Esse também é um ponto. E o reconhecimento salarial também é importante porque, de fato, as pessoas precisam viver, tem os seus filhos, a educação para os seus filhos, então nós temos um plano de incentivo que nós denominamos como PPL onde se faz a distribuição dos lucros. Fora, obviamente, as bolsas de estudos, o plano de saúde, o apoio ambulatorial, o plano de aposentadoria complementar, que eu acho muito importante, e tudo o mais.


»A pesquisa e a inovação são elementos chave para o sucesso da Duas Rodas. Quais foram as últimas inovações da empresa e o que deverá vir pela frente?

»A inovação sempre foi uma marca forte ao longo destes 91 anos. Hoje a Duas Rodas é uma empresa com 91 anos, com toda a experiência de uma empresa de 91 anos mas com uma característica jovem, inovadora. E nós trabalhamos com plataformas que integram o desenvolvimento da inovação incremental, que é a melhoria dos processos e dos nossos produtos que serão oferecidos para o mercado, e temos também as inovações disruptivas.


»Inovações disruptivas que custam mais tempo e mais dinheiro.

»Sim. Nem todas são aproveitadas, mas que é importante tê-las porque elas serão diferenciais competitivos no futuro.


»Especialmente porque elas colocam a empresa em outro patamar.

»Exato, em outro patamar. Agora, eu sempre falo que a inovação é fruto de um trabalho e esse trabalho tem que ser integrado para que tenha resultado efetivo. Não adianta eu falar que eu sou uma empresa inovadora se eu não agrego nada ao trabalho, se eu não aumento o faturamento da empresa com a inovação, se eu não melhoro as margens de rentabilidade da empresa.


»A inovação só faz sentido para uma empresa se ela traz resultados, não?

»Sim, ela precisa de resultados. Se não, ela não é reconhecida pelo mercado como um produto inovador. Então nós temos várias soluções, desde o substituto do sal, do açúcar, aromas com formulações diferenciadas e com moléculas diferenciadas como, também, nós temos produtos que estão sendo desenvolvidos com a coparticipação do cliente. Com a colaboração e sob a demanda dele, e sob o nosso apoio tecnológico também. É o que chamamos de cocriação, onde nós temos todo um ambiente onde são divididas as expectativas e, de certa forma, determinadas responsabilidades para que a gente possa entregar ao mercado um produto dentro do perfil e certificado.


»Esse tipo de inovação através da cocriação tem aumentado nos últimos anos?

»Muito. Eu vejo que a cocriação é a grande tendência da inovação. Mesmo dentro dos projetos disruptivos. Porque às vezes falam que a cocriação vai até o limite da compreensão da tecnologia que tu podes desenvolver ou que o teu cliente conhece. Então às vezes a gente tem que dar um up em relação a isso. Mas quando existe a visão de para onde o cliente quer seguir, é mais fácil tu oferecer os caminhos viáveis para esta direção.


»Ao olhar nesta direção pode vir uma inovação disruptiva também.

»Sem dúvida. Porque, na verdade, no final, a cocriação não é apenas a relação entre empresa e cliente, ela é empresa, cliente, fornecedores, instituições de pesquisa, instituições científicas, é um ecossistema porque você tem como abrir um pouco mais esta questão. E, obviamente, mais pessoas participando do projeto, o risco minimiza. Quem está no mercado e consegue dimensionar os impactos que podem ter no mercado e estiverem dentro do projeto, vão trazer esta perspectiva. Quem detém a tecnologia vai levar uma perspectiva, quem tem o conhecimento, as plataformas que eventualmente podem atender a esta demanda, e toda essa estrutura dá um corpo, vai modulando a inovação de forma muito mais pontual, muito mais orientada para o mercado.


»Neste caso, inovação dirigida para o mercado.

»A inovação custa. Qualquer produto novo, quando é lançado para o mercado, ele custa dinheiro, investimento.


»Falando sobre isso, hoje quanto a Duas Rodas investe exclusivamente em inovação?

»Nós temos o nosso Innovation Center (Centro de Inovação da Duas Rodas), com nossos técnicos, e gastamos em torno de 5,5% do faturamento global da empresa.


»Bastante. Mais do que a média do mercado, correto?

»Está acima da média do mercado mas está mais ou menos dentro da média se comparado com empresas do nosso setor.


»Neste caso o senhor está comparando com empresas do setor que estão em outros países, como nos Estados Unidos e na Europa?

»Sim, nos Estados Unidos, na Europa. Dentro do nosso segmento, é isso mais ou menos o que se faz nestes locais. É um benchmarking.


»Esse percentual investido pela empresa em inovação aumentou ou tem se mantido o mesmo nos últimos anos?

»O valor nominal foi aumentado, sem dúvida. Porque a empresa cresceu, e os percentuais se mantém mais ou menos dentro dos mesmos níveis. Mas de qualquer maneira, nós temos hoje ferramentas de apoio à inovação tecnológica que nos dão condição de ampliar ou, pelo menos, diluir este investimento em mais tempo. Como são linhas de crédito como Finep, direcionada a pesquisa e desenvolvimento e tudo o mais, de certa forma elas criam uma condição diferenciada para que se possa investir ainda mais em inovação tecnológica. Por isso quando eu falo de inovação tecnológica eu estou falando só de P&D (Pesquisa & Desenvolvimento), eu não estou falando de pesquisa de mercado, não estou considerando uma série de situações e de movimentos que são feitos dentro das Duas Rodas e que, de certa forma, também é pesquisa. Mas aí estes movimentos entram mais na conta do Marketing, nesta linha da empresa.


No caso da Duas Rodas, quando vieram os fundadores, que abriram mão de seu trabalho na Alemanha para iniciar a sua atividade, eles abdicaram de muito conforto na época, na Alemanha. Muito conforto eu digo de estrutura de cidade mesmo, de país. E vieram para o Brasil, onde tinha pouca infraestrutura, e iniciam as suas atividades. E talvez o que é o traço mais forte da cultura destes empreendedores foi reinvestir os seus recursos, manter o firme propósito de perenidade para a organização e a sua vocação para a inovação. Porque de fato eles foram inovadores e trouxeram produtos inovadores que, posteriormente, inclusive, foram exportados para a Europa.

»Neste cenário de retração econômica do país, como tem sido o ano de 2016 para a Duas Rodas? Vocês projetam crescimento? De quanto?

»A nossa projeção de crescimento para 2016 é de 15%. Nós estamos fechando o mês de novembro com em torno de 17% de crescimento. Acima da nossa projeção. Mas antes (de explicar isso), quero falar que nós reconhecemos o quanto é difícil ter uma empresa e ser empresário em um mercado muito turbulento como é o mercado brasileiro. Nós não queremos de maneira alguma… somos muito sensíveis a tantas empresas que não conseguem chegar neste patamar de crescimento não por falta de competência, mas por falta de condições que o governo possa trazer para que eles possam competir de forma adequada, fazendo com que as suas empresas possam crescer e tudo o mais. Então há uma irresponsabilidade dos nossos governantes quase que sem igual. Isso porque não foi só uma crise econômica, mas é também uma crise política, de confiança e ética. Isso que é o pior. Porque de fato, no final, as pessoas acabam não conseguindo acreditar nas novas possibilidades e cria um histórico. Isso não é legal, infelizmente.


»Mas, apesar de tudo isso, desta descrença, o senhor não acredita que há sinalizações positivas hoje no país?

»Existem sinalizações positivas. Na verdade, nós temos observado isso, existe um movimento proativo para isso. E esse movimento proativo cresce exatamente da população que não consegue mais aceitar a situação que está vivenciando de crise política e econômica. Por outro lado, e como foram afetadas muitas estruturas éticas dentro do sistema, as pessoas acabam não acreditando na mudança, e isso é muito ruim. Porque, por exemplo, se o meu discurso não for verdadeiro, quando eu precisar utilizar a verdade, eu não sou acreditado. Então demora muito esse movimento aceitar que, primeiro, o caminho é reconhecidamente melhor. Mas se ele vai ser colocado em prática, é um outro mundo.


»Existe muita insegurança no cenário ainda, não?

»Sim, há muita insegurança. Exato. Então, na Duas Rodas, o que nós sempre temos pensado é o seguinte: o que nós podemos mudar? O que depende da Duas Rodas como mudança, isso nós podemos fazer. Não temos como segurar ou melhorar uma variação cambial ou melhorar a taxa de juros. Não. Nós temos sim, e aí vai muito da cultura empresarial, nós estamos passando por uma crise, mas nós sempre fomos poupadores. Nós sempre reinvestimos com os nossos recursos. Nós nunca trabalhamos muito alavancados. Então tudo isso que é (característico) desde a fundação da empresa é o que está sendo o diferencial competitivo em relação aos nossos concorrentes em um momento como este.


»E tudo isso dá mais segurança para a empresa.

»Exatamente. No momento de crise, quando a tua estrutura de capital está protegida, tu consegue direcionar as tuas estratégias para o novo, para o mercado, para conquistar novos espaços. Porque quando ela (estrutura) está comprometida com uma preocupação financeira, claro que esta preocupação sempre dita a racionalização de despesas, isso sempre vai existir, mas quando tu está focado mais só na tua alavancagem e tudo o mais, tu perde um precioso tempo que tu poderia estar dedicando para o mercado.


»O crescimento da empresa da ordem de 17% até novembro deverá ser mantido até o final do ano? Vocês devem fechar 2016 com este crescimento?

»Olha, eu sou um otimista responsável. Então eu não fico vibrando antes de ver as coisas acontecendo. Então eu digo que o nosso planejamento, que está bem estruturado, define 15% (de crescimento). Mas se eu tivesse que fazer uma aposta, eu diria que vai superar este percentual. Eu acredito que deve ficar em torno mesmo de 17%.


»O mês de dezembro para a Duas Rodas não tem um peso especial no faturamento, como acontece para empresas de outros setores, como de alimentos?

»Nós não atuamos no varejo, apenas no B2B (de empresa para empresa), então ocorre que, de fato… claro que tem a questão da sazonalidade, porque é um período quente, então sai muito mais bebidas, sorvetes, tudo isso, mas não temos mais curvas de sazonalidade acentuadas.


»Isso também é positivo para a empresa conseguir fazer um planejamento com menos variações no ano, correto?

»Sim, é positivo. Sem dúvida.


»O que influenciou para a empresa ter registrado, até o momento, um crescimento inclusive acima do projetado para este ano?

»Um grande diferencial nosso foi exatamente a capacidade com que a nossa equipe compreendeu o movimento da crise. Então nós conseguimos antecipar algumas mudanças que eram necessárias. Como, por exemplo, a mudança de não perder o foco no mercado, direcionar a inovação para produtos que gerem resultado, identificar que mesmo em um ano crítico algumas ações mercadológicas devem ser pontuais e isso maximiza os resultados e minimiza o custo. Então significa, de certa forma, e eu não quero ser de maneira nenhuma prepotente, porque todos tem planejamento estratégico, mas eu acho que nós acertamos as nossas decisões estratégicas. Mas eu também quero deixar bem claro que nós estamos em um setor que teve um certo impacto, mas obviamente longe do impacto de outros setores. Eu não quero, de maneira nenhuma, estar passando uma posição de que vivemos em um mundo dourado.


»Até porque vocês conseguiram isso com muito trabalho.

»Exatamente. Além disso, o nosso mercado também é diferente. Tem muita gente que trabalhou muito, mas não conseguiu um bom resultado. Tem gente que trabalhou muito bem e não conseguiu resultado. Mas de maneira alguma diminui o nosso respeito em relação ao trabalho que foi efetuado (pelos outros).


»Também é diferente para vocês porque o senhor está falando em nome de uma empresa que é líder em seu segmento no país. Isso faz toda a diferença.

»Exato. De certa forma eu vivencio, e Deus tem até sido bom neste sentido, porque (a crise) não afeta o nosso negócio. Mas eu vivencio esse momento triste para as indústrias, para os trabalhadores com este desemprego alto e com a falta de perspectiva de crescimento do PIB, a taxa de juros… tudo bem que tem expectativa de que vai reduzir, mas de qualquer maneira isso tudo me sensibiliza muito. Talvez uma grande estratégia que nós utilizamos foi levar produtos para os nossos clientes onde eles pudessem utilizar os ativos disponíveis. Então eles não tiveram que investir em máquinas diferentes. Nós pegávamos a ociosidade do cliente e identificávamos produtos diferenciados para utilizar a capacidade produtiva. Então nós levávamos a inovação mas reconhecendo que o momento era um momento de contenção de despesas. Isso ajudou muito.


»Falando agora de planos da empresa. Quais são os planos para novos investimentos e qual é a projeção para 2017 e 2018?

»Em 2016 nós investimos R$ 34 milhões. Em 2017, o que acontece? Esses R$ 34 milhões, de certa forma, eles colocaram a empresa em um nível de automação adequada, em um nível de estrutura nas nossas fábricas adequado. Então em 2017, e eu não estou levando em conta aquisições, nós devemos investir R$ 30 milhões.


»Esses recursos serão investidos principalmente em renovação tecnológica?

»Em renovação tecnológica, na melhoria de processos, em produtividade e dentro desta linha. Sem contar a parte de aquisições.


»Nesta parte, de aquisições, o senhor não se arrisca a fazer uma estimativa?

»Eu não posso te dizer porque, querendo ou não o mercado brasileiro, e eu te diria até… há uma janela de oportunidades no mercado da América Latina. Mas nestes momentos qualquer passo tem que ser dado com muita cautela. A empresa tem que ser uma empresa geradora de resultados, ela não pode ter dívidas muito grandes, então tem que adequar o perfil da empresa que está sendo selecionada para aquisição dentro daquilo que é a nossa expectativa também. Então as opções vão afunilando. Mas é praticamente certo que uma aquisição deva se fazer no decorrer de 2017. Aliás, a nossa intenção tem sido uma aquisição por ano. No ano passado nós fechamos (a compra) da Mix (Indústria de Produtos Alimentícios), neste ano nós temos um desafio e, nos próximos dois anos, outros dois desafios de aquisição.


»Estas aquisições que estão sendo estudadas por vocês seriam feitas fora do país?

»As oportunidades que estão surgindo hoje são oportunidades no mercado nacional. Mas nós estamos de olho em oportunidades também no mercado internacional. Por que o que acontece? Quando eu falo de uma janela de oportunidade é porque tem pessoas que realmente se cansaram de tocar a empresa, se cansaram de investir os seus recursos sem a seriedade que eles encontram no mercado. Então são pessoas que, de certa forma, já desistiram desta luta. E é aí que surgem as oportunidades. E as empresas que estão capitalizadas acabam aproveitando estas oportunidades de aquisição.


»Quando o senhor comenta que há oportunidades no Exterior seria no mercado latino?

»Sim. O nosso foco é a América Latina. Até pode surgir… eu não posso dizer que desta água eu não beberei, então pode surgir uma oportunidade fora, mas o nosso foco é a América Latina.


»Para muitas empresas a saída para a retração do consumo no país foi olhar para fora, exportar mais. Neste sentido, a Duas Rodas também buscou mais as exportações? Qual é a participação hoje das vendas para o mercado externo?

»O nosso processo de exportação ficou praticamente nos mesmos patamares, em torno de 10% a 12% do nosso faturamento. Na verdade, cresceu muito as ações no mercado nacional. Subiu o internacional também, mas com uma taxa de crescimento de quase 17%, a participação ficou a mesma porque os novos mercados tem moedas muito mais estáveis, não tem nenhuma desvalorização e tudo o mais. Então, no final, fica no mesmo patamar. Na verdade, em todas as empresas nós tivemos crescimento em receita.


»Vocês estão conseguindo um desempenho melhor em que países?

»Nós vamos entregar uma fábrica nova no Chile este ano, construímos uma fábrica na Argentina. A Argentina ainda é um cenário complexo porque o Macri não está conseguindo implementar as mudanças, mas existem 33 milhões de habitantes. É gente que vai consumir, então é uma questão de ter paciência. Infelizmente a América Latina sofre um pouco isso em função também de seus governantes. Na Colômbia nós estamos crescendo bem, assim como no Chile. Estamos crescendo muito bem no México.


»Destes países que o senhor citou, qual tem realmente se destacado? Seria o México?

»Em crescimento o México tem se destacado. Em consolidação de negócios, o Chile tem se destacado.


»Para os Estados Unidos vocês não exportam?

»Nós exportamos para os Estados Unidos, mas ainda não fizemos nenhuma aquisição no mercado americano. A nossa filosofia é vamos crescer, com arrojo, com taxa de crescimento média que nós apresentamos arrojada.


»Crescimento de dois dígitos há vários anos não é para qualquer empresa.

»Crescemos há mais de 15 anos estes dois dígitos. Agora, de fato, a partir do momento que nós entrarmos (com unidade própria) nos Estados Unidos temos que estar com a nossa posição muito consolidada de liderança na América Latina. Não adianta nós ficarmos abrindo portas em tudo que é canto. Nós temos que abrir, liderar e daí abrir outras. Agora, claro, que depois da América Latina, o nosso objetivo para a ser as Américas.


»No ano que vem a Duas Rodas se consolidando como líder na América Latina fará com que vocês entrem com outra credencial no futuro nos Estados Unidos.

»Exatamente.


»A questão Donald Trump ainda é incerta, mas se ele fizer como presidente o que ele sugeriu como candidato, inclusive fechando um pouco o mercado americano, isso também favoreceria a entrada da Duas Rodas no país, ou não?

»Eu diria o seguinte: particularmente, não posso falar por outros, mas eu me preocupo muito porque o Trump fala muito e ele não é muito consistente no que ele diz. Eu acho que uma das coisas mais importantes é estabelecer primeiro a temperança, praticar ela primeiro, para baixar a poeira e ver as coisas assentando. Não digo na época das Eleições, porque isso faz parte, todo mundo fala muito, mas agora ele já é o futuro presidente dos Estados Unidos e me assusta um pouco alguns comentários que ele faz e que não são consistentes. São, de fato, são comentários muito mais populistas ainda do que consistentes. Por exemplo, fechar os Estados Unidos para a China é um absurdo quando a China tem a maior reserva em dólar, a maior reserva cambial em dólar do mundo. Então são coisas bobas que estão sendo faladas. Eu não sei de fato o que ele vai praticar do que ele está falando. Tem coisas positivas, mas tem muita bobagem sendo dita. Temos que esperar para ver.


»Temos que esperar o que ele vai fazer na prática além dos discursos que ele dá para ganhar espaço na mídia.

»Exatamente. E, de certa forma, e de maneira nenhuma isso nos conforta, mas a gente percebe que tem políticos fora do contexto normal em outros países também.


»A Duas Rodas está muito próxima do centenário. Como vocês estão se preparando para ele e como o senhor imagina a empresa para as próximas décadas?

»Eu diria que a próxima década da empresa será de crescimento vigoroso. Ela continua crescendo porque o mercado tem dado oportunidade para novos projetos. Sem dúvida alguma sempre será um desafio a gestão, a integração e o alinhamento entre capital e trabalho, mas sempre em conversas abertas, dentro da perspectiva do que podemos fazer de melhor. É assim que eu espero que a empresa continue. Há 91 anos a empresa vivencia esse tipo de modelo e que ela continue vivenciando ele ao longo do tempo. E, de fato, eu diria que a nossa empresa, apesar de ser um grupo de pessoa que estão há mais tempo dentro da empresa, são pessoas jovens que iniciaram a sua atividade… tem pessoas aqui com 10 ou 15 anos de trabalho mas que são jovens ainda e com um gás incrível. Elas serão muito bem aproveitadas no futuro. Quando eu falo que um dos grandes desafios da nossa empresa sempre foi a perenidade, eu vejo os 100 anos da empresa com a categoria de uma centenária, com o equilíbrio de uma empresa que vivenciou grandes transformações no mundo mas com a vontade e a garra de uma jovem criança que está iniciando o seu processo de aprendizado naquele momento.


»Consequentemente uma empresa que mantém a sua curiosidade a sua inovação.

»Isso, que mantém a curiosidade e a inovação. E que permita que todos que aqui trabalhem sejam participantes de todo esse processo. Inspirados pela nossa cultura.»





Inovação e recursos

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